Burocratês: como encontrar e tirar do seu texto

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O burocratês é a linguagem de formulários e memorandos internos que se infiltrou em cartas, posts, newsletters, artigos. Reconhece-se em "proceder à verificação" em vez de "verificar" e "com o objetivo de incrementar" em vez de "para incrementar". Um texto assim se lê devagar, soa distante e esconde quem realmente fez algo. Este artigo explica de onde vem e por quais sinais se reconhece. O ponto central é como tirar o burocratês do seu texto sem transformar uma carta comercial num bate-papo informal. Dentro: 12 técnicas com exemplos, uma tabela de trocas, uma carta antes e depois e um checklist, além de uma seção sobre quando uma expressão formal é a certa.

O que é burocratês e de onde vem

"Proceder à emissão das credenciais" soa certo num memorando interno — é para isso que memorandos existem. O burocratês surge quando as fórmulas de documentos oficiais aparecem onde não são necessárias. A mesma frase num e-mail para um colega soa estranha, porque você nunca falaria assim numa conversa de verdade.

Uma frase feita isolada é diferente de um estilo construído com muitas delas. "O supracitado" ou "tendo em vista o exposto acima" não afundam um parágrafo sozinhos; uma dúzia deles no mesmo parágrafo, sim.

De onde vem, se normalmente não falamos assim? Em termos simples, o burocratês é uma espécie de armadura. Deixa o texto mais sério, dilui a responsabilidade ("foi tomada uma decisão" — por quem?) e evita o esforço de achar as próprias palavras quando frases prontas estão à mão. Outra causa é a escola, onde um tom formal era visto como sinal de trabalho bem-feito.

O problema não é que palavras rígidas sejam feias. Elas deixam a leitura mais lenta: em vez de uma ação, o leitor recebe um substantivo; em vez de um agente, uma construção passiva; e o sentido precisa ser reconstruído. Por isso primeiro se procura o burocratês pelos sinais, depois se elimina com técnicas.

Características do burocratês: como reconhecer no seu próprio texto

As características do burocratês se repetem de um texto para outro, então dá para pegá-las quase mecanicamente. Abaixo, sete marcadores. Se vários aparecerem em sequência no mesmo parágrafo, reescreva o parágrafo inteiro em vez de remendar palavra por palavra.

  • Nominalizações. "Realização", "efetivação", "garantia de", "utilização": a ação está escondida no substantivo, o verbo virou só uma muleta.
  • Voz passiva sem agente. "Foi tomada uma decisão", "os trabalhos foram realizados" — por quem, ninguém sabe.
  • Cadeias de substantivos. "A questão da elevação do nível da qualidade do atendimento ao cliente" — cinco substantivos em fileira, a maioria empilhados uns sobre os outros.
  • Preposições de enchimento. "Com o objetivo de", "em relação a", "na eventualidade de", "com relação a", "no âmbito de".
  • Verbos muleta. "É", "constitui", "reveste-se do caráter de".
  • Palavras de preenchimento. "O supracitado", "o mencionado", "o aplicável", "o pertinente", "determinados".
  • Introduções rituais. "Cumpre ressaltar que", "é de se destacar", "como é sabido", "vimos por meio desta chamar a atenção para o fato de que".

Ao lado desses sinais estão os clichês — "nos dias atuais", "no mundo de hoje", "desempenha um papel importante". Não são burocratês em si, mas moram na mesma vizinhança e saem com as mesmas técnicas.

12 técnicas que tiram o burocratês de um texto

As técnicas vão das trocas mais comuns às mais refinadas. Para tirar o burocratês de um texto, não é preciso aplicar as doze em cada frase: as cinco primeiras costumam bastar, o resto é para expressões que ainda soam rígidas depois. Essa é a resposta real para como escrever em linguagem simples: não decorar listas de palavras, mas enxergar o mecanismo.

1. Devolva a ação a um verbo

Por trás de uma nominalização quase sempre há um verbo escondido. "Proceder à verificação dos documentos" vira "verificar os documentos". "Efetuar uma análise dos dados" vira "analisar os dados". "Garantir a preservação de" vira "preservar". Regra prática: se "proceder a", "efetuar" ou "garantir" está ao lado de um substantivo de ação, geralmente dá para cortar os dois.

2. Corte "é" e seus parentes

"A empresa é líder de mercado" vira "a empresa lidera o mercado" — ou simplesmente "a empresa é a líder", sem o preenchimento. "O documento constitui uma lista" vira "o documento lista". "Existe um atraso na entrega" vira "a entrega está atrasada". Os verbos muleta só são necessários onde a frase desaba sem eles, e isso é raro num texto vivo.

3. Nomeie quem age

A voz passiva sem agente esconde, junto com o agente, a responsabilidade. "Foi decidido adiar o lançamento" vira "decidimos adiar o lançamento". "A solicitação será analisada" vira "um gestor vai analisar a solicitação". Se o agente é realmente desconhecido ou sem importância, a passiva está ok — mas confira se é mesmo o caso.

4. Desfaça cadeias de substantivos

Três substantivos em fileira costumam ser o limite antes de o leitor perder o fio. "A questão da elevação do nível da qualidade do atendimento" vira "como atender melhor os clientes". "Um plano de medidas para a efetivação do programa de desenvolvimento" vira "um plano de como fazer o projeto crescer". Ache o verbo escondido, e a cadeia se desfaz.

5. Troque preposições compostas por simples

"Com o objetivo de economizar" vira "para economizar". "Tendo em vista que" vira "porque". "No âmbito do projeto" vira "no projeto". "Com relação ao pagamento" vira "sobre o pagamento". "A título de verificação" vira "para checar". Uma preposição composta é quase sempre uma palavra a mais, às vezes duas.

6. Corte as palavras de preenchimento

"O supracitado", "o mencionado", "o aplicável", "o pertinente" não acrescentam nada ao sentido. "O supracitado relatório" vira "o relatório" ou "este relatório". "Dentro do prazo aplicável" vira "no prazo". "Determinadas dificuldades" — diga quais. Depois de cortar, releia: a frase não mudou ou ficou mais precisa.

7. Um verbo em vez de um par verbo mais substantivo

Isso dá continuidade à técnica 1, mas merece menção à parte por ser tão comum. "Efetuar um pagamento" vira "pagar", "prestar auxílio" vira "ajudar", "tomar parte" vira "participar", "dar consentimento" vira "concordar", "exercer atividades" vira "trabalhar". A lista poderia continuar sem fim, o mecanismo é sempre o mesmo.

8. Tire as introduções rituais

"Cumpre ressaltar que os prazos mudaram" vira "os prazos mudaram". "Vimos por meio desta chamar a atenção para o fato de que" é cortado por inteiro. Uma introdução só se justifica se mudar o sentido: "infelizmente", "segundo nossos dados", "diferente do ano passado".

9. Desfaça as orações subordinadas empilhadas

Duas ou três orações subordinadas numa única frase são sinal para dividi-la. "Os documentos apresentados pelo cliente, que assinou o contrato, que contém as condições…" são na verdade três fatos: o cliente assinou o contrato; o contrato contém condições; o cliente apresentou os documentos. Divida a frase, e a ordem dos pensamentos fica visível — a frase também encurta.

10. Troque o abstrato pelo concreto

"Adotar medidas para melhorar a situação" não diz nada. Melhorar como: trocar de fornecedor, contratar um entregador, adiar um prazo? O burocratês adora palavras genéricas, porque ninguém precisa se responsabilizar por elas. Concretude é a saída mais confiável, mas só o autor pode fornecer isso.

11. Corte "existência", "ausência", "o fato de"

"Na existência de erros" vira "se houver erros". "Devido à ausência de resposta" vira "já que não há resposta". "O fato do não pagamento" vira "a fatura não foi paga". Essas palavras transformam um estado numa coisa e alongam a frase sem benefício algum.

12. Leia em voz alta

A última técnica confere todas as outras. Leia o parágrafo em voz alta, como se estivesse explicando a um colega. Você vai tropeçar na frase que não diria assim — é essa que se reescreve. O ouvido pega o burocratês melhor do que o olho, porque não falamos desse jeito.

Tabela de trocas: burocratês e alternativas naturais

Os exemplos de burocratês abaixo estão reunidos numa tabela que você pode copiar e manter por perto na revisão. A alternativa à direita não é a única opção: teste e confira se o sentido se mantém.

BurocratêsAlternativa natural
no presente momentoagora
no mundo de hojehoje, agora
com o objetivo depara
tendo em vista queporque
em razão depor causa de
no âmbito deem
com relação asobre
faz-se necessárioé preciso
existe
exercer atividadestrabalhar
prestar auxílioajudar
efetuar um pagamentopagar
levar em consideraçãoconsiderar
o supracitado, o mencionadoeste — ou nada
na existência dese houver
na eventualidade da impossibilidadese não der

Com o que substituir uma frase burocrática que não está na tabela? Com o mesmo mecanismo: substantivo de ação em verbo, composto em simples, genérico em concreto. A lista pessoal de frases burocráticas é diferente para cada autor, e é preciso continuar achando casos novos por conta própria.

Exemplo: uma carta a um cliente antes e depois

O burocratês numa carta comercial aparece principalmente porque quem escreve tem medo de parecer pouco sério. Abaixo, um aviso do atendimento ao cliente e a versão dele depois de aplicar as técnicas deste artigo.

Antes

Prezado cliente, vimos por meio desta informar que, em razão da realização de trabalhos de manutenção do sistema, o atendimento de novas solicitações ficará temporariamente suspenso no período de 20 a 22 de setembro. Solicitamos que leve em consideração esta informação ao planejar suas solicitações. Com relação a quaisquer dúvidas sobre os prazos de atendimento de solicitações já enviadas, favor entrar em contato com nosso atendimento ao cliente.

Depois

Oi! De 20 a 22 de setembro vamos atualizar o sistema e não vamos conseguir atender novas solicitações nesse período. Leve isso em conta se for falar com a gente nessa época. Se você já enviou uma solicitação e tem dúvida, é só falar com o atendimento.

O que mudou: "vimos por meio desta informar que" sumiu por completo — é uma introdução ritual (técnica 8). "Em razão da realização de trabalhos de manutenção" virou "vamos atualizar o sistema": o verbo e o agente voltaram (técnicas 1 e 3). "O atendimento ficará suspenso" virou "não vamos conseguir atender" (técnicas 1 e 7). "Levar em consideração esta informação" virou "leve isso em conta" (técnicas 6 e 7). A carta caiu de 74 para 43 palavras, e o sentido — as datas, o que não vai funcionar, onde buscar ajuda — ficou totalmente preservado.

Repare que nada de novo foi acrescentado à carta. A tentação de incluir "resolveremos o mais rápido possível" é grande, mas essa promessa não está no original, então não cabe na revisão. Revisar o estilo não deveria mudar o que de fato foi prometido — essa regra vale para qualquer correspondência comercial.

Quando o burocratês é apropriado e não deve ser mexido

Expressões rígidas não são um erro de linguagem, mas uma ferramenta própria de certos gêneros. O estilo formal exige precisão, fórmulas padronizadas e ausência de carga emocional, e ali essas frases funcionam bem. Tirá-las de um documento jurídico significa mudar o gênero, e às vezes o próprio sentido jurídico.

  • o texto é um contrato, uma portaria, uma reclamação ou uma resposta a um pedido oficial;
  • a formulação é fixada por um modelo, um regulamento ou uma lei;
  • a frase pode ser citada numa disputa, onde a precisão importa mais do que a leveza;
  • o leitor espera exatamente aquele tom, e uma linguagem casual soaria pouco séria.

Em qualquer outro lugar, o burocratês só atrapalha: em cartas, newsletters, posts, instruções, textos de site. Uma regra simples: se o documento vai ser assinado, mantenha a linguagem formal; se vai ser lido, tire.

Checklist: checar um texto em busca de burocratês em cinco minutos

Checar um texto em busca de burocratês pode ser rápido se você seguir uma lista em vez de ir pelo instinto. Copie o checklist e passe por ele antes de enviar qualquer coisa.

  • Nenhum verbo muleta como "proceder a", "efetuar", "garantir" ao lado de substantivos de ação.
  • "É", "constitui", "reveste-se do caráter de" foram substituídos ou cortados.
  • Em cada construção passiva, o agente está nomeado ou realmente não importa.
  • Nenhuma cadeia com mais de três substantivos em fileira.
  • "Com o objetivo de", "em relação a", "no âmbito de", "com relação a", "na eventualidade de" trocados por preposições simples.
  • "O supracitado", "o mencionado", "o aplicável", "o pertinente" cortados.
  • Nenhuma introdução ritual como "cumpre ressaltar que".
  • "Medidas", "questões", "aspectos" abstratos trocados por algo concreto.
  • O texto foi lido em voz alta, e nenhuma frase fez você tropeçar.

O estilo é só uma camada da revisão. Para ir mais fundo, na estrutura e na lógica, existe um guia à parte sobre como revisar seu próprio texto em sete passadas.

Tirando o burocratês no iBro

Se um parágrafo insiste em soar rígido e não há tempo para analisar, dá para deixar a primeira passada com uma ferramenta. No "Melhorar texto" do iBro, você cola um texto e clica em "Melhorar texto": a ferramenta tira o burocratês e as tautologias, e afia as formulações. O resultado aparece ao lado do original, então cada mudança fica visível. Se a revisão parecer tímida demais, clique em "Melhorar texto" de novo embaixo do resultado: a ferramenta reenvia o mesmo texto original e entrega um resultado novo e independente, não uma continuação do anterior — não há memória entre os usos.

O resultado pode ser copiado, baixado como arquivo (PDF ou .docx) ou compartilhado por link; os usos anteriores ficam salvos por 30 dias no histórico de solicitações. Caracteres por solicitação: até 6000. Usos gratuitos por dia sem conta: 3, um limite compartilhado por todas as ferramentas de IA do site; as condições para contas cadastradas estão na página de preços.

A ressalva honesta: a ferramenta corrige a forma, não o conteúdo. Ela não sabe qual formulação o regulamento da sua organização exige, e pode trocar uma fórmula obrigatória por uma natural. Por isso não passe contratos nem respostas oficiais por ela; já em cartas e posts, compare o resultado com o original usando o checklist acima. Teste num parágrafo no Melhorar texto e compare com o que você teria feito à mão.

Perguntas frequentes

O que é burocratês, em termos simples?

É a linguagem de formulários e memorandos aparecendo onde não devia: em cartas, posts, newsletters, artigos. Os sinais são substantivos no lugar de verbos ("proceder à verificação" em vez de "verificar"), voz passiva sem agente e frases feitas como "é", "com o objetivo de", "o supracitado". Um texto assim se lê devagar, e não fica claro quem fez o quê.

Qual a diferença entre burocratês e estilo formal?

O estilo formal é um registro legítimo para contratos, comunicados, regulamentos. O burocratês são esses mesmos hábitos fora desse registro. A diferença está na adequação: "vimos por meio desta informar" cabe num comunicado oficial, não num e-mail para o cliente. O estilo formal não precisa ser suavizado; basta manter o burocratês fora de todo o resto.

Como checo rapidamente um texto em busca de burocratês?

Percorra o checklist deste artigo: procure verbos de apoio, "é" no lugar de uma ação, voz passiva sem agente, cadeias de substantivos, preposições rebuscadas e palavras de preenchimento. Depois leia o texto em voz alta: qualquer frase que você não diria assim numa conversa é burocratês. Um parágrafo leva cerca de um minuto.

Dá para eliminar o burocratês por completo?

Num texto vivo, quase — mas não mire no zero absoluto. Uma única expressão como "com relação a" não afunda o texto, e correr atrás de uma limpeza perfeita transforma a revisão em tarefa sem fim. Uma meta mais simples: o leitor nunca tropeça, e cada frase deixa claro quem faz o quê.

Como eu removo burocratês de um texto com IA?

Cole o texto numa ferramenta de melhoria e veja o que ela sugere. Os modelos lidam bem com as trocas mais comuns: devolver o verbo, cortar palavras de preenchimento, simplificar preposições. Eles são mais fracos no concreto e nas fórmulas obrigatórias, então compare o resultado com o original. Mais sobre o que o modelo corrige bem e onde muda o sentido: nosso artigo sobre como funciona o melhorador de texto com IA.

Por que o burocratês soa tão mal?

Porque esconde a ação e quem a pratica. O leitor lê "proceder-se-á à suspensão do atendimento das solicitações" e precisa reconstruir: alguém vai parar de atender solicitações. Cada frase assim custa um esforço a mais, e no fim do parágrafo a atenção se esgota. Uma frase direta diz quem faz o quê, e se lê de primeira.

Conclusão

O burocratês não sai com talento, mas com hábito: identificar o sinal, aplicar a técnica, conferir lendo em voz alta, repetir. Comece pelas duas trocas mais comuns — devolver o verbo, nomear o agente — e boa parte da rigidez desaparece. Mantenha a tabela de trocas e o checklist por perto na revisão, e deixe a linguagem formal onde ela faz sentido: nos documentos. Você pode passar um rascunho de carta ou post primeiro pelo Melhorar texto e depois finalizar à mão com o checklist.

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