História e diálogo
Como continuar uma história que parou na melhor hora: a cena interrompida bem no clímax, o diálogo entre personagens que ficou sem resposta e o conto que precisa de um desfecho à altura do começo.
Cena que parou no meio
Para a cena que trava na melhor hora: mais três parágrafos no estilo do original, com liberdade para inventar detalhes.
O ônibus das cinco para Ouro Preto saiu com nove passageiros e uma chuva que começou ainda na rodoviária. Marina escolheu a poltrona do fundo, encostou a testa no vidro e fingiu dormir até o cobrador passar. Na mochila, entre duas blusas e o carregador, estava o envelope que ela tinha prometido não abrir antes de chegar. Faltavam três horas de estrada quando
ela percebeu que já havia passado o dedo pela aba colada umas vinte vezes.O homem do outro lado do corredor dormia de boca aberta. A moça da poltrona da frente assistia a uma novela antiga no celular, volume baixo, sem fone. Ninguém olhava para ela. Marina tirou o envelope da mochila devagar, como quem tira um copo cheio de uma bandeja.Dentro havia uma folha só, dobrada em três, com a letra miúda do pai e uma data no canto: quatro de março, dezoito anos antes do dia em que ele morreu.
Diálogo que ficou sem resposta
A conversa para na deixa e falta o resto: continua só com quem já está em cena, sem trazer personagem novo.
— Você falou com ela?— Falei. Ontem, no estacionamento do mercado, antes da chuva.— E?— E ela perguntou por que eu levei sete meses para aparecer.— O que você respondeu?— Nada. Fiquei olhando as rodinhas tortas do carrinho e
pensando que qualquer coisa que eu dissesse ia soar ensaiada.— Então você ficou calado.— Fiquei. E ela esperou. Você sabe como ela espera, sem pressa nenhuma, como se tivesse o dia inteiro.— E aí?— Aí começou a chover e ela disse que precisava guardar as compras.— Só isso.— Só isso. Mas antes de entrar no carro ela perguntou se eu ainda fazia café àquela hora da tarde.— E faz?— Faço. Todo dia, às quatro.
Conto que precisa de desfecho
Quando falta o último trecho da história: leva o texto até o fim, com espaço para uma virada.
Seu Nilton passou trinta e dois anos consertando relógios na galeria do centro do Recife. Quando o shopping abriu do outro lado da avenida, a galeria foi esvaziando: primeiro o sapateiro, depois a loja de discos, por fim a lanchonete do seu Zé. Na segunda-feira em que chegou o aviso de despejo, havia dezessete relógios na prateleira esperando dono.
Ele não ligou para ninguém. Limpou o balcão, acendeu a luminária e começou pelo primeiro da fila, um relógio de corda que tinha chegado em abril.Levou duas semanas. Consertou os dezessete, embrulhou cada um em papel de seda e saiu a pé para entregar, endereço por endereço. Quatro donos tinham se mudado e dois haviam morrido.Na última porta, a filha do dono atendeu com outro relógio na mão. Disse conhecer alguém que procurava quem soubesse mexer em pêndulo, numa loja perto da praça. Seu Nilton respondeu que não sabia se aguentava outra galeria, mas anotou o telefone no verso do papel de seda.