Vale entender a mecânica de largar um hábito por outro motivo também: a maioria das tentativas fracassadas não reforça o hábito em si, e sim a crença de que "eu simplesmente não tenho força de vontade suficiente". Essa é uma conclusão falsa. O fracasso costuma dizer menos sobre o caráter da pessoa e mais sobre o fato de que se usou uma estratégia de proibição pura onde, na verdade, era preciso trabalhar o gatilho e a substituição. A diferença entre essas duas explicações decide se a próxima tentativa será mais consciente, ou vai repetir os mesmos erros.
Qualquer hábito estabelecido, bom ou ruim, se sustenta numa cadeia psicológica simples: ocorre um gatilho — uma situação, horário, emoção ou lugar específicos —, seguido pela ação, que então proporciona algum tipo de recompensa, mesmo que breve. O cérebro memoriza essa ligação com o tempo e acaba disparando a ação quase automaticamente assim que o gatilho aparece, antes mesmo de qualquer decisão consciente.
1
Gatilho
Uma situação, horário, emoção ou lugar específicos — o que dispara a cadeia ainda antes de qualquer decisão consciente.
2
Ação
O próprio comportamento habitual — com o tempo, passa a acontecer quase automaticamente assim que o gatilho aparece.
3
Recompensa
Alívio do estresse, uma distração rápida ou outro prazer, mesmo que breve — o que fixa toda a ligação no cérebro.
Proibir a ação diretamente deixa intactos o gatilho e a necessidade da recompensa — a pessoa continua enfrentando o mesmo estresse, tédio ou situação original, só que agora sem a forma habitual de lidar com isso. É justamente por isso que uma recaída depois de alguns dias de "pura força de vontade" não é sinal de fraqueza de caráter, e sim consequência previsível de a causa original não ter ido a lugar nenhum, enquanto agora é preciso resistir à cadeia inteira em vez de um único elo.
É revelador o exemplo de tentar largar doces à noite só pela proibição: alguém tira os doces de casa, aguenta uma semana na determinação pura, e então recai mais forte do que o normal — porque o cansaço noturno e a necessidade de um prazer rápido depois de um dia difícil não foram embora, simplesmente ficaram sem saída. A proibição resolveu a disponibilidade da ação, não a causa que a provocava.